Sobre as artes e porque já não se fazem artistas como antigamente

Johann Sebastian Bach nunca imaginou que seria classificado como um compositor “barroco” – termo que ainda não era corrente em seu tempo; muito menos que o futuro o elegeria como um dos maiores criadores da história da música ocidental: morreu quase ignorado por seu contemporâneos e é muito possível que musicólogos e compositores de seu tempo, jamais vaticinassem qualquer porvir para a sua produção musical. A contemporaneidade é sempre suspeita perante a história. Dias atrás, escrevendo sobre a cultura brasileira, um dos grandes jornalista brasileiros lamentava que hoje não existam compositores e literatos da estatura de Villa-Lobos e de Guimarães Rosa.Talvez tivesse razão quanto à falta de unanimidade sobre os artistas conhecidos. Mas a hipótese de que desconheçamos, hoje em dia, alguns grandes artistas que a posteridade irá consagrar, não parece mera esperança de um certo otimismo historicista.

Baudelaire reclamava que a imprensa do seu tempo só se preocupava com os artistas que faziam sucesso. Já, na época, o que hoje se multiplicou no que chamamos de “midia”, tinha uma nítida preferência pelo que suas próprias páginas, repetitivamente, elogiavam. Atualmente, o círculo vicioso do que se convencionou chamar “indústria cultural” parece, igualmente, só se preocupar com o que ela mesma condena e defende. Chame-se esta unanimidade de burra, ou de ideologia dominante para amortizar as consciências críticas,  só explica o que se sabe. Ou não se sabe. Não parece improvável que mais que nunca os artistas talvez não freqüentem suas páginas ou estejam ausentes dos ecos de seus próprios proclamas, por contestarem a coisa de fora, do político, ou do “esteticamente correto”. Parece que não sabemos, enfim, como o futuro batizará a nosso momento histórico – se seremos como certa crítica pretende “pós-modernos” ou coisa parecida – mas provavelmente não se deve esperar que o sistema seja justo com os que realmente merecerão os verbetes das enciclopédias; ou das páginas especializadas.

Esse, talvez o grande paradoxo do nosso tempo: jamais, em momento algum, depois de Cristo, as informações transitaram com tanta velocidade e em tão grande quantidade como no século XX e XXI – mas jamais, também, os juízos foram tão seletivos, em nome dos interesses políticos, econômicos e mais que tudo, pelos preconceitos de toda a ordem, ditados principalmente pela ideologia dominante. Oswald de Andrade parece ter pespegado bem a coisa quando, do alto de sua veia falastrona, já economicamente arruinado, prognosticou que seu então desafeto, Mário de Andrade, certamente ocuparia um lugar muito mais proeminente do que ele próprio, na história, não apenas da literatura brasileira. Talvez fosse injusto consigo mesmo: os concretistas e outros que o redescobriram podem, quem sabe, levantar as suas objeções a propósito – mas são poucos, não apenas os concretistas, que podem dizer, com segurança, se a aparente esterilidade da cultura artística brasileira, deve-se a uma real ausência de grandes nomes em todas as áreas da arte; ou se, o que pensamos que não exista, é o fruto da nossa ignorância; ou do desconhecimento consciente da grande mídia.

No filme “Meia Noite em Paris”, Woody Allen joga uma pergunta bastante pertinente sobre o assunto. No breve diálogo, em que volta ao passado, o personagem principal do filme surpreende-se ao ouvir de Tolouse-Lautrec, num cabaré, que a época do impressionismo seria antes de tudo, de um decadentismo insuperável. Ao se referir a um passado que seria, para nós, pelo contrário, o momento mais importante para o futuro da arte, um dos protagonistas, justamente um dos grandes projetistas da modernidade, menoscabava sua própria importância. Benvenuto Cellini, o grande ourives e escultor da Renascença ( que obviamente não se sabia “renascentista”), não subestimava seu tempo. E no momento oportuno não regateava a expressão “divino”para se referir a seu colega, o também escultor (e pintor) Michelangelo Buonarroti – artista que à cada eleição de um novo papa, sempre nos faz voltar à capela Sistina como um ponto de reverência, nem tanto de parte dos católicos ou crentes, mas justamente dos incréus e agnósticos. A ninguém é dado não reverenciar a capela e seu teto, vale dizer, celebrá-la em tom maiúsculo; e menos por seu aspecto religioso do que por sua permanência como objeto estético.

A questão sobressai para o Brasil atual, que “não tem mais um Portinari” para ecoar unanimidades. Mas não terá o Brasil, realmente grandes artistas, dignos do respeito da posteridade? Tão difícil dizer que tais artistas não existem – como afirmava o jornalista em seu comentário sobre o momento atual da arte do Brasil, – quanto garantir o contrário: que hoje não temos apenas um, mas vários pintores, escritores e músicos tão importantes e excelentes quanto outros, de todos os tempos.

A questão, na era da internet, talvez seja, paradoxalmente, mais complexa do que se imagina. De parte da crítica da grande imprensa, talvez as coisas se expliquem. O dever do ofício, quem sabe, se lhe imponha que ela pegue a tradução do livro que faz sucesso em Nova York, e atenda aos pedidos insistentes do editor chefe do jornalão, de escrever uma resenha, invariavelmente favorável. Pelo menos para explicar as vendas. Sejamos sinceros: qual o crítico de cinema da grande imprensa, que tem a coragem de chamar o último lançamento cinematográfico, e de sucesso, uma autêntica porcaria? À boca pequena ouvimos dos amigos que o último filme de Spielberg sobre Lincoln é muito chato – mas há o “Oscar”, há a badalação da mídia, há os clientes, há a televisão. E então surge a obrigatoriedade de, ao menos, assisti-lo de qualquer maneira.

Quanto às artes artesanais, a pintura, a orquestra sinfônico e o balé, essas, em geral, já não dispõem de espaços na imprensa hegemônica. E se o artista for, de fato, muito bom, correrá bastante tempo até que a mídia e premie para a notoriedade.

Há quem culpe o neoliberalismo pelo atual estado das coisas; não parece uma mentira. Quando as riquezas dependem menos da produção do que do mundo virtual, tudo o que sobrevier em qualquer campo, parecerá mera cartomancia. Heinrich Heine, o poeta romântico alemão, dizia que a crítica musical deveria ter por base “a experiência”. A se pensar bem, toda a crítica deveria partir da realidade empírica – mas como fazê-lo se a”mídia” – que deveria ser justamente o “meio” entre a obra e o seu criador, subtrai-se como parte de seu ser privatista e interesseiro?

Em tempos não muito antigos, quando os católicos tinham de saber se uma obra religiosa lhes era proibida, havia a informação, em latim, na primeira página: “nihil obstat”- ou seja a peça literária em apreço “não era proibida”. Hoje, em teoria, no nosso mundo laico, “nihil obstat” obra alguma. Em teoria, temos acesso a tudo – a não ser àquilo que, sub-repticiamente, sem que muitas vezes saibamos, o por quê, a grande mídia omite. Então fica realmente difícil saber se se fazem ou não artistas como antigamente.

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